 No início, era o teclado. Para “conversar” com os computadores, digitávamos comandos na linguagem das máquinas - lembra do C:/ piscando na tela? - e recebíamos respostas igualmente complicadas, no jargão próprio dos programadores. Então vieram as interfaces gráficas, que substituíram os comandos no teclado pelo mouse. A providencial flechinha, que nos permite clicar em qualquer ponto da tela, selecionar, arrastar, movimentar objetos, parecia a solução definitiva para todos os problemas. Porém, estamos testemunhando o nascimento de uma nova forma de interagir com as máquinas, muito mais intuitiva e natural: os múltiplos toques - ou multi-touch, como foi batizada a tecnologia.
As telas que respondem ao tato em si não são novidade. Desde o hoje pré-histórico Palm, que reconhecia a escrita na tela, aos terminais de atendimento bancário, com seus já familiares botões virtuais, já sabíamos que era possível comandar pelo toque. O multi-touch, no entanto, vai muito além destes usos que já se tornaram comuns para nós. Não estamos mais falando de tocar um ponto pré-definido na tela, apertando um botão ou selecionando um número qualquer. Por meio de uma combinação entre software e hardware e do uso de técnicas como sensibilidade ao calor, à pressão dos dedos, luz infravermelha, captura óptica e captura de sombra, a tela multi-touch é capaz de perceber e interpretar diversos toques em pontos diferentes de uma tela simultaneamente e transformá-los em comandos. Na prática, significa poder tocar em um objeto na tela e arrastá-lo; girar, aumentar e diminuir imagens; virar páginas virtuais; navegar por mapas, aproximando e afastando as imagens; traças linhas e desenhar formas - tudo isso usando as pontas dos dedos. Multi-touch entra em cenaSe este pacote de recursos lhe soou familiar, não é mera coincidência. Todos eles ganharam fama pela primeira vez com o arrasa-quarteirão da Apple, o iPhone, lançado em 2007. “O multi-touch é a grande revolução do iPhone”, reconhece Fábio Ribeiro, engenheiro de sistemas da Apple Brasil. De lá para cá, o multi-touch vem se tornando cada vez mais conhecido e ganhando outras aplicações comerciais. A onda começou com o Surface, computador-mesa da Microsoft, apresentado pouco depois de Steve Jobs fazer a primeira demonstração do iPhone. O Surface é uma mesa que pode funcionar como um centro multimídia da casa, na qual várias pessoas podem interagir juntas com fotos, vídeos e mapas, assim como no telefone da Apple. Além das dimensões e da colaboração, a novidade introduzida no dispositivo é o reconhecimento e a interação com dispositivos posicionados sobre a superfície. Se você coloca uma câmera com comunicação sem fio sobre o Surface, imediatamente ele abre as fotos salvas na máquina e você pode interagir com elas na tela. O mesmo vale para um MP3 player, como o Zune, também da empresa de Bill Gates. Dos laboratórios às prateleirasEmbora tenham levado a fama, nem a Apple nem a Microsoft foram as precursoras da tecnologia. No início da década de 80, pesquisadores da Universidade de Toronto, no Canadá, e do Bell Labs, nos Estados Unidos, já experimentavam com o multi-touch. Outros acadêmicos, como Jefferson Y. Han, da Universidade de Nova York, fizeram progressos impressionantes com os sistemas multi-touch mais recentemente - vale a pena visitar o seu site, onde cenas que parecem tirados do filme “Minority Report” mostram exatamente como a tecnologia funciona O que explica então o tardio aparecimento das interfaces multi-touch no mercado? A resposta é simples: preço. “O Surface já existe desde 2000. A barreira comercial era o custo do hardware”, admite Galileo Vieira, gerente de novas tecnologias para consumidor final da Microsoft. “Hoje o custo é menor, especialmente em telas pequenas”, afirma Walter Duran, diretor de tecnologia da Philips. “Mas isso vai chegar às telas maiores. No prazo de dois a três anos, muitas telas já sairão de fábrica com o recurso”, aposta ele. Na área de dispositivos móveis, as previsões também são otimistas. “O multi-touch resolve um problema que surgiu com o uso multimídia dos celulares: a necessidade de uma tela grande. Como ele elimina o teclado, sobra mais espaço para todo o resto”, explica Andre Varga, gerente de produtos da Samsung. “Sem dúvida, é uma tendência forte para os portáteis”, ele completa. Isso significa que, a tecnologia pode ter demorado a decolar comercialmente, mas daqui para frente o ritmo de adoção deve ser cada vez mais acelerado. Bill Gates em pessoa anunciou que a próxima versão do Windows - o sistema operacional mais utilizado do mundo - terá suporte a multi-touch. A expectativa é que o Windows 7, com suporte à tecnologia, seja lançado no mais tardar em 2010. Outros produtos multi-touch já estão invadindo as prateleiras. A Apple já ampliou o portfólio, incluindo trackpads (área do notebook que substitui o mouse) sensíveis a múltiplos toques no Macbook Air e no MacBook Pro. Os concorrentes não ficaram atrás. Dell e HP já anunciaram computadores com telas multi-touch e Samsung e Nokia já preparam suas ofensivas na área de celulares. A Microsoft foi além e apresentou o protótipo de uma tecnologia, o LaserTouch, que pode transformar qualquer superfície plana – como uma parede em branco – em uma tela multi-touch, por meio de uma combinação de infravermelho, sensores e câmeras. “No futuro, qualquer superfície poderá ser multi-touch”, antecipa Vieira, da Microsoft. Aplicações possíveis A tecnologia por si só é impressionante, mas o que determinará o sucesso do multi-touch enquanto interface serão as aplicações criadas sobre ele. À primeira vista, a grande vocação do multi-touch é o entretenimento.
“Os testes que realizamos revelam que as atividades preferidas estão ligadas à diversão. O legal é virar fotos, aumentar, diminuir, navegar por um vídeo”, relata Duran, da Philips. “Tem o timing certo para divertir as pessoas coletivamente”, ele acrescenta.
Um dos protótipos da Philips usando multi-touch, o InTouch, é uma tela de 42 polegadas que permite ao morador da casa do futuro ditar recados de voz ou escrever mensagens de texto diretamente na “parede” e enviar a um contato, simplesmente tocando na sua foto. Já a Microsoft demonstrou aplicações de jogos em dupla usando o Surface.
Além da manipulação de objetos gráficos e da colaboração, a consultoria Gartner elenca no relatório “Aplicações da Indústria para a Computação de Superfície” outros benefícios das interfaces de superfície, como a seleção direta de tarefas a partir de opções pré-definidas – que é mais intuitiva, atendendo aos usuários sem familiaridade com o computador – e a navegação por mapas e mundos 3D.
Com estas características, o multi-touch certamente não ficará restrito à sala de estar. O próprio Surface já foi negociado para aplicações comerciais. Lojas da AT&T que vendem telefones celulares nos Estado Unidos já estão testando o uso da superfície multi-touch como mostruário nas lojas. Se o cliente quiser saber mais sobre um produto, ou compará-lo com outro item, basta colocá-los sobre a superfície e as informações são exibidas imediatamente.
Já o Rio All-Suite Hotel & Casino, do grupo Harrah’s, está testando o Surface em uma aplicação ainda mais inusitada: como uma plataforma de diversão, jogos, personalização de drinks e até como um canal para a paquera, permitindo a comunicação entre os clientes que freqüentam a casa.
Entre os possíveis usos comerciais da tecnologia, o Gartner cita ainda cardápios interativos em restaurantes, vitrines de lojas inteligentes (a Philips já registrou patente para esta aplicação), quiosques bancários mais ricos em funções e com menos telas para navegar, displays em hospitais - que podem ser usadas por médicos e pacientes para consultar e interagir com prontuário, manipular imagens de exames, permitir a colaboração entre especialistas -, entre outras.
Dentro das empresas também haverá espaço para o multi-touch. Segundo a consultoria, seu uso faz sentido em projetos de colaboração interna, salas de reunião, design conjunto de produtos e apresentações.
Porém, nas tarefas do dia-a-dia de um escritório começam a aparecer as limitações. A falta de precisão nas seleções e cortes é uma delas, segundo o Gartner. A entrada de novas informações, como textos e números, também é restrita - embora isso possa ser resolvido com alternativas como reconhecimento de fala, teclados virtuais (que já aparecem em produtos como o iPhone) e escrita manual, como nos tablets.
Utopia ou realidade? A visão do multi-touch como uma possível interface predominante entre homem e máquina não é unânime. Para o professor João Zuffo, da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo - autor do livro “Flagrantes da vida no futuro” -, o multi-touch está sendo superestimado. “É apenas uma das formas de interação possíveis. Teremos coisas muito mais avançadas, como interação pela voz, pelos movimentos do corpo e pelo próprio pensamento”, ele antecipa.
“Como qualquer tecnologia, o multi-touch não funciona para tudo, embora seja ideal para muitas aplicações”, reconhece Ribeiro, da Apple. Obviamente, os milhões de computadores que utilizam estes dispositivos não sumirão ou deixarão de ser usados de uma hora para outra.
Está claro, contudo, que a fronteira cruzada pelo multi-touch é sem volta. Seja em maior ou menor escala, ao gosto dos entusiastas ou no ritmo dos conservadores, a tecnologia será uma das formas importantes de nos relacionarmos com as máquinas em um futuro nada distante.
Em um relatório com o profético título “Computação por Gestos: O Fim do Mouse”, que cita o multi-touch como um dos divisores de águas para um novo paradigma de interfaces, o Gartner sentencia: “Em 2011, quando olharmos para trás, provavelmente vamos identificar 2008 como o ponto de virada na transição do mouse e teclado para a computação por gesto”. Portanto, é hora de colocar a mão na massa - ou na tela - e abraçar a evolução.
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